sexta-feira, 12 de abril de 2013

.'. ESPIRITUALIDADE – UMA EXPANSÃO CÓSMICA .'.




Espiritualidade, no vocabulário, consiste num estado elevado de mente e comportamento, atribuído ao impulso que vem de um Ser Divino, Superior. Então, a pessoa espiritual é aquela que se supõe ser motivada por aquilo que considera ser um poder superior, sobrenatural, transcendente. Acredita-se que esse guia interior do pensamento e ação transcenda todo o intelecto e propósito humano. A pessoa espiritualizada, conscientemente, procura subordinar seus interesses mundanos e objetivos às suas inclinações subjetivas de conduta correta e de consciência. Esta inclinação é atribuída ao elemento espiritual do Ser Humano, ao elo entre o Ser mortal e o que considera Superior, Transcendente.

É evidente que existem dois aspectos de espiritualidade, no que diz respeito à sua influência sobre o individuo.

Primeiro há o conceito de que estamos imbuídos de uma essência ou substância, possuindo uma qualidade divina. Esta, como espírito ou alma, possui uma ordem mais elevada de julgamento ou direção. Sua qualidade é perfeição; e supõe-se que, da obediência à mesma, só pode resultar um estado de santidade, uma extrema e elevada felicidade.

A expressão dessa substância espiritual é sentida como sendo os ditames de um Ser interior, um estado moral. Através da autoconsciência, ele avisa quando os atos ou pensamentos de alguém estão em conflito com o mesmo. Naturalmente, a palavra consciência define eficazmente a função daquilo que se considera o Ser espiritual. Conseqüentemente, alguém cuja vida estivesse em consonância com o Ser elevado estaria vivendo de maneira espiritual, sob um dos aspectos do vocábulo.

Todavia, a espiritualidade não é inteiramente subjetiva. As orientações ou impulsos da consciência devem ser expressos em termos objetivos, em linguagem compreensível ao indivíduo. Além disso, devem estar relacionados com o mundo das coisas e dos acontecimentos, seja no agir ou não-agir. Em outras palavras, a regra espiritual deve ser traduzida, objetivamente, em conduta e pensamento que a represente.

Em conseqüência, o segundo aspecto da espiritualidade consiste de um código moral. Tal código prescreve crenças especiais, traduzidas numa determinada conduta, que deve ser observada. Origina-se o código de uma tradição sagrada, como é o decálogo, ou a Lei mosaica, ou dos trabalhos sacros tais como a Bíblia ou o Alcorão e outros livros sagrados das diversas religiões existentes. Impulsos no sentido da retidão necessitam de expressão em tal código. Do contrário, não tem valor. Mas, se cada indivíduo estabelecesse a sua própria estrutura moral, isto é, externasse aquilo que considera vida espiritual, é claro que não haveria, para a sociedade, nenhuma uniformidade de conduta moral. Conforme dizia Hegel, o filósofo alemão, ser moralista é viver em consonância com as tradições éticas do seu país.

Entretanto, alguém que observasse algum código moral ou espiritual de maneira objetiva, tais como determinadas regras e regulamentos, poderia não ser verdadeiramente espiritualizado. Poderia não haver correlação alguma entre a obediência às regras objetivas e as inclinações subjetivas. Por exemplo, uma pessoa poderia participar de um sistema espiritual, de um método religioso, por razões que não decorrem da consciência ou Ser moral. Consciência pública e consciência particular talvez não coincidam. Por força da lei e receio da sanção legal, alguém poderia estar de acordo com a consciência pública, contudo, pessoalmente, poderia ser espiritualmente débil. O impulso interior do individuo, no sentido de uma idéia moral transcendente, pode ser carente de alguma coisa. Não havendo restrições para a vontade, não havendo receio de punição, o comportamento do individuo poderia se tornar muito diverso dos padrões éticos de ordem geral.

As religiões são sistemas de crenças e comportamentos pelos quais o indivíduo aspira viver uma experiência que, segundo a sua concepção, o coloca em sintonia com sua noção de força sobrenatural ou Ser Divino. Ele poderá desejar essa harmonização a fim de preservar certos valores de vida, como longevidade e sucesso, ou para se assegurar a respeito de sua imortalidade. Todavia alguém poderá não ter uma conduta religiosa ou prestar homenagem a qualquer igreja,seita ou credo da sociedade de que faz parte. Poderá não reconhecer as tradições da religião. Não obstante, motivada pelo impulso espiritual de querer se unir a um poder transcendente, ser capaz de analisar os valores morais da sua coletividade. Pode, então, vir a compreender que certa conduta é necessária para preservação da sensação de bem-estar que ela deseja, não apenas em relação ao ser físico, mas, também, para proporcionar a paz e harmonia interior pelas quais se esforça. Conseqüentemente, a sua conduta, em suas relações humanas, irá realmente se pautar por aquilo que consideramos os valores morais justificados. Manifestará, pois, todas as virtudes do religioso formal, muito embora sem aquela afiliação ou método de adoração deste último.

Tais pessoas são, em princípio, são tão espiritualizadas quanto aqueles bem caracterizados frequentadores de igrejas ou partidários de credos tradicionais. Psicologicamente, significa que, por maneira objetiva, em forma intelectual (doutrina) ou em expressão (ritos e cerimônia), não encontram, nas religiões estabelecidas aquilo que estaria em harmonia com os seus respectivos espíritos religiosos. 

A ciência tem propiciado fatos novos e diferentes em substituição a muito daquilo que antigamente se aceitava exclusivamente à base de fé. Novas interpretações nos campos da psicologia, medicina, física quântica e outras tantas especialidades têm trazido a luz do ser humano esclarecido, explicações sobre fenômenos antes sem uma explicação lógica e, portanto, atribuídos ao sobrenatural, mágico ou religioso. Novos canais de expressão da consciência devem surgir. A mistura entre ciência, filosofia e religião, acabará por fundir-se em organizações de visão holística abrangente e formadora de um ser humano com suas potencialidades interiores mais ativas e despertas. Estas organizações adiantadas estão despertando o interesse dos indivíduos esclarecidos que, então, passarão a integrar suas causas.

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma organização internacional de caráter místico-filosófico, que tem por missão despertar o potencial interior do ser humano, auxiliando-o em seu desenvolvimento, em espírito de fraternidade, respeitando a liberdade individual, dentro da Tradição e da Cultura Rosacruz. 


Fonte: Ordem Rosacruz - AMORC
Maiores informações: www.amorc.org.br

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Poder das Letras do Alfabeto Hebraico




As palavras do alfabeto hebraico são lidas da direita para a esquerda, e as letras também são números. Assim, o Alef, a primeira letra, corresponde também ao número 1. Isso, por si só, implica numa linguagem universal de significado matemático, que serve a todos.
Os cabalistas da Idade Média e do começo da Renascença entenderam a a energia das letras e acreditaram que deviam divulgá-las para toda a humanidade, pois não eram propriedade de um povo apenas. De fato, não devemos encarar essas letras como os outros alfabetos, pois existe uma diferença enorme. Elas falam diretamente à nossa alma... a forma evoca forças poderosas, que existem no interior de todos nós. O DNA da Criação.

Os olhos são as janelas da alma...
Em cada ser humano, quatro letras comuns (A, C, G, T) representam as bases químicas que compõem nosso código genético, e formam os “degraus” das moléculas espiraladas em forma de escada que conhecemos como DNA. As seqüências dessas letras combinam-se para criar o conjunto de instruções que constrói o ser humano, em todos os seus aspectos. Isso é o que ensina a genética, uma ciência relativamente recente.

Os cabalistas nos ensinam que cada uma das 22 letras hebraicas representa uma força de energia particular, semelhante ao DNA. De acordo com a Cabalá, assim como cada ser humano é constituído do alfabeto genético de quatro letras, encontrado em nosso DNA, o Universo também é construído por um alfabeto de 22 letras, encontrados nas letras hebraicas. Não apenas os seres humanos, mas toda a matéria física é formada por esse DNA espiritual. 

“As letras do Alef-Beit (alfabeto hebraico) são os tijolos e a argassa de nosso Universo, e dos indivíduos, com suas habilidades pessoais.”
Da mesma forma que um prisma divide a luz solar em sete cores básicas, cada uma bem diferente da luz branca que a originou, e ao mesmo tempo fazendo parte dela, as letras aramaicas são como 22 “cores” diferentes, através das quais podemos perceber a divindade em nosso mundo material. Formam os tijolos da criação, através dos quais tudo foi formado.

Assim, o Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) escrito por Moisés, não é uma coleção de histórias, nem um documento da história humana, mas um projeto genético que esquematiza as forças espirituais da vida. Usando a Cabalá como chave, podemos penetrar no nível genético do Pentateuco (Torá).
Quando o Eterno as combinou em palavras, frases e ordens, elas produziram a Criação, traduzindo a vontade do Criador em realidade.” “Cada rearranjo da ordem das mesmas letras resulta numa mistura diferente das forças cósmicas espirituais representadas por elas, assim como cada rearranjo dos átomos conhecidos, tais como hidrogênio e oxigênio, pode produzir água potável ou água oxigenada. Existe um número infinito de combinações possíveis, tanto nos átomos quanto nas letras.”

“A combinação das letras, conforme formuladas pelos mestres espirituais que compuseram as orações, possui o poder de elevar forças espirituais além de nossa imaginação.”
Isso tudo foi uma introdução para apresentar a idéia de “escanear” as letras hebraicas, uma das ferramentas mais importantes da Cabalá. A palavra escanear aqui é usada com seu significado habitual, da informática: deixamos que nossos olhos “varram” as letras, da direita para a esquerda, linha após linha, como um scanner ou “leitor óptico”, desses usado em supermercados.

E assim como um scanner, não precisamos entender o que lemos para obter os benefícios. É uma energia suprarracional.
Os olhos são as janelas da alma...
Através deles, a energia das letras passa ao nosso interior, diretamente para a alma, sem que seja necessário o entendimento das palavras. A velocidade não importa, nesse caso, pode ser bem rápido, com ou sem o dedo indicador para guiar.

Quando passamos os olhos pelo texto da Torá, ou de alguma bênção, ou dos 72 Nomes, obtemos o efeito espiritual sem necessidade de raciocínio ou entendimento, (não é necessário saber hebraico).


sexta-feira, 29 de março de 2013

O Mistério da Páscoa e a sua celebração




(JOSÉ FERREIRA, in Os Mistérios de Cristo na Liturgia, Ed. Secretariado Nacional de Liturgia)

1. A centralidade da Páscoa

A atenção voltada de novo para o Mistério Pascal, fruto, em grande parte, de movimento litúrgico, levou à redescoberta da liturgia da Páscoa, sepultada, desde a Idade Média, debaixo de um amontoado de ritos secundários que encobriam o principal, e à revisão do calendário e dos horários dos dias do Tríduo sagrado com que, desde e início, os cristãos celebravam os "mistérios máximos da Redenção". Nem foi por acaso que a recente reforma da liturgia começou pelas celebrações da Páscoa.

Bem antes do Concílio Vaticano II, quando ainda nem dele se suspeitava, Pio XII que, já na década de 40, ordenara o estudo histórico da liturgia pascal, promulgou, ines­peradamente, em 1951, a Vigília Pascal restaurada. Foi o primeiro passo. Começara-se pelo núcleo central, pelo coração da liturgia da Páscoa. Começava a sentir-se que era verdade o que o mesmo papa havia de dizer, anos mais tarde, em 1956, que o "movimento litúrgico apareceu como um sinal das disposições providenciais de Deus sobre o tempo presente, como uma passagem do Espírito Santo na Igreja"[1].A experiência desta primeira reforma na liturgia levou, em 1952, a nova revisão da Vigília que esteve em uso durante mais de três anos, até que, em 1955, toda a Semana Santa beneficiou de uma reforma profunda[2]. Aliviaram-se as estruturas litúrgicas de elementos adventícios que as sobre­carregavam sem vantagem, punham-se em relevo os elementos principais, redefiniu-se o Tríduo Pascal e, coisa particularmente significativa, reconduziram-se as celebrações dos três dias da Páscoa às horas verdadeiras, sobretudo a Noite Santa, que assim voltava, de novo, a ser verdadeiramente uma Vigília. Oito anos depois, o Concílio declarava que "era desejo da Santa Igreja fazer uma reforma geral da liturgia"[3]. Tinha-se começado pelo coração do ano litúrgico e pelo coração do mistério da liturgia; agora todos os sectores da vida litúrgica iam beneficiar dessa reforma. O Concílio nascia assim em ressurreição pascal, fruto do tal novo sopro do Espírito na face da Igreja.

Mas não foi só em relação ao Tríduo Pascal e a toda a Semana Santa que as reformas litúrgicas anteriores ou posteriores ao Concílio vieram pôr em evidência o Mistério Pascal de Cristo; em toda a Constituição sobre a Liturgia e mesmo nos outros documentos conciliares é o Mistério de Cristo o centro donde tudo o mais irradia e recebe o impulso vital. Reencontramo-nos assim facilmente com o ambiente dos próprios textos evangélicos, as exposições cristológicas de S. Paulo, a doutrina e a celebração litúrgica das origens cristãs e das comunidades do tempo dos antigos Padres da Igreja do Oriente e do Ocidente.

A solenidade da Páscoa volta a ser na vida e na consciência da comunidade cristã, depois do Dia do Senhor em cada domingo, a solenidade máxima do ano cristão, a Solenidade das Solenidades. Ela o é em princípio e é preciso que o seja de facto, como a Sé Apostólica o recordou num documento que procurava evitar que esmorecesse com o tempo o entusiasmo dos primeiros anos da restauração da celebração anual da Páscoa. [4] A centralidade do Mistério Pascal exige a centralidade da sua celebração e da catequese que a há-de acompanhar.

2. O Mistério da Páscoa

O Mistério Pascal e a sua celebração foi já objecto de três Encontros Nacionais de Liturgia em Fátima nos anos de 1982, 1983 e 1984 e os trabalhos aí realizados foram publicados em três fascículos do Boletim de Pastoral Litúrgica[5].No entanto, a cele­bração anual da Páscoa obriga a olhar sempre, como se fosse a primeira vez, para o seu mistério, para a realidade divina que se encerra e se nos oferece no acontecimento pascal.

Páscoa começa por ser o nome de uma festa judaica[6],que, em cada ano, celebra o acontecimento fundamental da história do povo de Deus do Antigo Testamento: a sua libertação do Egipto, onde os hebreus viviam como emigrantes reduzidos à escravidão, e a sua passagem para a Terra prometida por Deus, desde longa data, a Abraão e à sua descendência.

Páscoa chamou-se também ao cordeiro pascal, como no texto de S. Paulo: "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado"[7]; na verdade, o Sangue de Cristo é o penhor da libertação para todos os homens, como o sangue do cordeiro o tinha sido para os hebreus aquando da saída do Egipto. De facto, a oblação, até ao sangue, de Cristo na cruz realiza a passagem libertadora do pecado e da morte para a vida em Deus, como se lê no Evangelho de S. João, logo no início dos capítulos que consagrou à Paixão do Senhor: "Sabendo Jesus que era chegada a hora de passar deste mundo para o Pai..."[8]. Daí que Páscoa tenha vindo a significar, em última análise, no sentido real, passagem, qualquer que tenha sido na origem o seu sentido etimológico, aliás difícil de precisar.

É, de facto, esta passagem, em primeiro lugar de Jesus e depois de todos os homens, deste mundo para o Pai o sentido último da Páscoa cristã. Aqui encontra a sua razão de ser toda a história da salvação; para aqui se encaminha, desde o princípio, a sucessão dos tempos e das gerações; aqui atinge a plenitude e revela a sua significação total a própria Encarnação do Filho de Deus; aqui finalmente encontra a Igreja de Cristo o alicerce da sua fé e a meta da sua esperança.

A Páscoa, o Mistério Pascal, ou ainda por outras palavras, os acontecimentos pascais com a sua significação divina, centra-se na morte de Jesus sobre a Cruz, pela qual Ele passou para o Pai, onde vive na vida nova da Ressurreição. "Jesus de Nazaré, o Crucificado" de Sexta-feira Santa, "não está aqui, ressuscitou", disse o Anjo às mulheres que procuravam o seu corpo no túmulo (Mc 16, 6). Tomando a condição humana na Encarnação, o Filho de Deus tomou sobre Si o pecado da humanidade; mas oferecendo-Se ao Pai sobre a Cruz por todos os homens, Ele tira o pecado do mundo e, "destruindo assim a morte, manifestou a vitória da ressurreição"[9], para dela tornar participantes todos os homens. Para isto Ele veio ao mundo, para levar em Si e consigo os homens ao Pai. "Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto para o Pai", disse Jesus (Jo 16, 28), mas volta levando agora em Si o homem cuja condição assumiu (Cf. Fil 2, 6-11).

Mistério inaudito, este da passagem pascal do homem para o Pai pela oblação do Cordeiro Pascal. É este mistério que, desde o princípio, foi o centro da liturgia cristã; aí a Igreja o recorda, aí o celebra, aí ela se torna participante, já desde a terra, da vida do Ressuscitado, antegozo da comunhão com o Pai na glória celeste.

3. A Celebração da Páscoa

A Páscoa não é celebrada apenas no Domingo da Ressurreição, mas no Tríduo Pascal, que se inaugura com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, ao entardecer de Quinta-feira Santa, e se conclui com a Hora de Vésperas do Domingo da Ressurreição. Não se trata propriamente de um conjunto de celebrações. O Tríduo Pascal tem um ritmo e uma unidade interna indestrutível. A sua celebração principal, e na origem a única, é a Vigília na Noite Santa. Aí se celebra todo o Mistério Pascal, o mistério da passagem da morte à vida, da terra ao céu, deste mundo para o Pai[10]. A liturgia da Palavra desta Vigília faz memória da história da salvação desde "o princípio em que Deus criou o céu e a terra"[11] até à Ressurreição do Crucificado[12]: do paraíso primeiro onde o primeiro homem pecou e foi condenado a morrer até ao jardim de José de Arimateia, onde o túmulo vazio é sinal da morte vencida, e onde o Ressuscitado Se manifesta, vivo, na glória do Pai.

Na celebração da Vigília, o mistério que a Palavra anuncia, os sacramentos logo o realizam. O Baptismo, imitando, na passagem pela água, a morte e a sepultura com Cristo, torna os baptizados realmente participantes na passagem pascal do Senhor; a Con­firmação, que, em princípio, se segue ao Baptismo dos adultos, comunica o Espírito Santo, dom pascal por excelência, fruto da Páscoa de Jesus; a Eucaristia, memorial máximo da Páscoa do Senhor Jesus, ao mesmo tempo que é memória do acontecimento passado, é presença sacramental do mesmo na assembleia da Igreja eanúncio da comunhão eterna na glória futura. A Páscoa, já afirmava S. Agostinho, celebra-se de modo sacramental, in mystério.

A Sexta-feira e o Sábado Santo, os dois primeiros dias do Tríduo Pascal, são dias alitúrgicos, como lhes chamavam os Antigos, isto é, dias sem celebração eucarística. São os dias do jejum pascal referido na Constituição conciliar sobre a Liturgia, os dias em que o Esposo foi tirado, como Jesus tinha anunciado (Mt 9, 15), "dias de amargura", no dizer de S. Ambrósio, nos quais todo o Corpo da Igreja comunga directamente, e como que fisica­mente, na dor e na morte da sua Cabeça, Cristo crucificado, morto e sepultado. As cele­brações destes dois dias são apenas Liturgias da Palavra, na celebração, aliás magnífica, da Paixão do Senhor na tarde de Sexta-feira Santa e na Liturgia das Horas, nesse dia e no Sábado Santo. Não são dias vazios, pelo facto de neles não se celebrar a Eucaristia; são antes dois dias do grande silêncio, da grande paz, da profunda comunhão do espírito e do coração com o Homem-Deus, em que se manifesta a situação trágica do pecado dos homens, ao mesmo tempo que o poder e a força do amor, que leva o Pai a entregar o Filho à morte por nós, e o Filho a oferecer a sua vida ao Pai pelos seus irmãos.

Cristo é o grão de trigo semeado na terra; se este não morrer, ficará infrutífero, mas se morrer, dará muito fruto (Cf. Jo 12, 24). O Sábado Santo em particular faz sentir toda a pujança desta sementeira divina.

Como no fim da primeira criação Deus descansou de toda a obra que realizara (Cf. Gen 2, 2), assim agora também Jesus descansa sob a terra da obra desta nova criação. E "a Igreja, no Sábado Santo, permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando na sua paixão e morte, até ao momento em que, depois da solene Vigília ou expectação nocturna da ressurreição, se der lugar à alegria pascal, cuja riqueza se prolongará por cinquenta dias". É tudo o que o Missal Romano diz no Sábado Santo[13].

A Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira anterior é o momento de celebrar a instituição dos "sagrados mistérios", a Eucaristia, que o Senhor, antes de sofrer a paixão, entregou aos seus discípulos para que eles os celebrassem[14] como memorial, sempre repetível, da sua Páscoa. Esta celebração é como que a abertura de todo o Tríduo Pascal.

Já no princípio da semana, no Domingo da Paixão ou de Ramos, a procissão que acompanhou o Senhor até Jerusalém, onde vai sofrer a paixão, proclamava a vitória e o triunfo da Páscoa do Senhor, que da morte fez surgir a vida, para salvação dos homens, para glória de Deus Pai.

4. O Tempo de Páscoa

A celebração da Páscoa engloba a morte e a ressurreição do Senhor, melhor ainda, a morte que é passagem para a ressurreição. Não admira, por isso, que, no início sobretudo, a palavra Páscoa se pudesse ter dito tanto da morte como da ressurreição.

Assim, tempo houve em que o que hoje chamamos Semana Santa foi chamado semana da Páscoa, a semana em que "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado". Hoje damos o nome de Tempo da Páscoa ou Tempo Pascal (é este precisamente o nome oficial) aos cinquenta dias que vão do Domingo da Ressurreição (na origem, da Eucaristia da Vigília) até ao Domingo do Pentecostes. Mas foi todo este espaço de cinquenta dias que recebeu, no início, a designação de Pentecostes, ou Cinquentena, como a palavra significa, a Cinquentena da alegria pascal, laetissimum spatium. Este espaço de alegriaé, na realidade, uma grande oitava de domingos, envolvendo sete semanas e terminando, de novo, com o domingo, tal como cada semana começa com o Dia do Senhor e vai, de novo, encontrá-lo no oitavo dia. Mas o Calendário Romano vai mais longe e diz que "os cinquenta dias que vão do domingo da Ressurreição ao domingo de Pentecostes se celebram na alegria e no júbilo como um único dia de festa, mais ainda como "um grande domingo", citando nesta última expressão uma palavra de S. Atanásio.

O Tempo Pascal nasce da Vigília; aí se faz a passagem do luto à alegria, do jejum ao banquete, da tristeza à festa, da morte à vida. Tempo de alegria, de acção de graças, de aprofundamento do sentido do mistério cristão e da vida em Cristo, do mistério da Igreja e consequentemente do mistério da comunidade dos cristãos, o Tempo Pascal é o tempo espiritual, por excelência, do ano litúrgico. É o tempo em que o Ressuscitado dá o Espírito: "Recebei o Espírito Santo"[15], e que se conclui precisamente com a efusão do Espírito Santo sobre os discípulos, que, uma vez "cheios do Espírito Santo", aparecem no mundo como a "Igreja de Deus" da "Nova Aliança"[16]. Cristo ressuscitado, "Primogénito de entre os mortos", é, por isso mesmo, "Cabeça do Corpo da Igreja" (Col 1, 12ss). De facto, na Páscoa "unem-se o céu e a terra, o divino e o humano"[17].

O Tempo Pascal precisa de ser redescoberto. A reforma litúrgica não parece ter levado às últimas consequências o que, nos princípios, dele afirmou! Mas recuperou a sua unidade e o ritmo dos seus oito domingos, todos eles agora claramente chamados Domingos da Páscoa.

5. A Vida Pascal

A vida cristã é uma vida pascal, porque vida dos que foram sepultados com Cristo, no Baptismo, para viverem, com Ele, uma vida nova, como se exprime o presi­dente da assembleia, na Vigília, antes da renovação das promessas do Baptismo. Esta vida nova é a vida de Cristo ressuscitado, a vida d' Aquele que, por ter oferecido a vida até Se entregar à morte, vive agora na glória do Pai, exaltado com o nome divino de Senhor (Fil 2, 11). Vida com Cristo em Deus, é ainda, sobre a Terra, uma vida escondida, vivida na fé e na esperança, vivificada pelo Espírito, que é Amor. Vida nova, porque vida do homem novo, que é o Senhor ressuscitado, ela anima toda a existência cristã e expri­me-se em tudo o que é vitória sobre o pecado e a morte. Esta novidade de vida em Cristo é uma das notas mais postas em realce nos textos da liturgia do tempo da Páscoa.

Como já foi referido, a Páscoa é celebrada, no dizer de S. Agostinho, como um mistério, de maneira sacramental, não tanto como uma história que se evoca, mas como um mistério tornado presente de maneira sacramental para nele se poder participar. É assim que, na Vigília, ocupa lugar central a celebração dos sacramentos da iniciação cristã: Baptismo, Confirmação e Eucaristia, os sacramentos da vida nova. Por meio desses sacramentos nascem os novos filhos de Deus. Eles são a humanidade nova, que a liturgia saúda como "crianças recém-nascidas", "cordeiros recém-nascidos", "nova prole da Igreja, multidão renovada"[18]. Em cada ano e em todo o mundo, muitos são os que, na noite da Páscoa, nascem como nova geração do povo de Deus.

S. Paulo, partindo da sugestão fornecida pelo pão ázimo próprio da Páscoa judaica, pede aos seus leitores que, purificados do fermento velho, sejam uma nova massa, para celebrarem a festa pascal[19]. E a liturgia pede que, na Páscoa, todos os sinais, dos mais importantes aos mais simples, sejam a partir de elementos novos: a água e os santos óleos para o Baptismo; o pão para a Eucaristia, para que não venha a ser necessário recorrer ao pão consagrado guardado no sacrário desde antes do Tríduo Pascal; a luz que há-de acender o Círio e iluminar a celebração durante a noite de Vigília; a ornamentação do altar, que foi desnudado antes da celebração; e, mais que tudo, "o coração, as vozes e as obras"[20]: seja tudo novo, para que, "renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida" como pede a colecta do Domingo da Ressurreição.

Anualmente repetida em cada primeiro Domingo que se segue à Lua cheia do equinócio da primavera, a Páscoa surge sempre nova, como sempre nova é a vida imortal do Senhor ressuscitado. E aquela Lua, que enche sempre de claridade a noite santa da Páscoa, continua a ser, em cada ano e desde há tantos séculos, desta solenidade da vida nova a "testemunha fiel no firmamento" (SI88, 38).



[1] Pio XII, Discurso aos participantes no I Congresso Internacional de Liturgia de Assis - Roma, Setembro de 1956.

[2] Cf. Ordo Hebdomae sanctae instauratus, 1955.

[3] Concílio Vaticano lI, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, n. 21.

[4] Congregação do Culto Divino, aos Presidentes das Conferências Episcopais sobre a celebração da Páscoa.

[5] A Celebração do Mistério Pascal. Tríduo Pascal, in Boletim de Pastoral Litúrgica, nn. 29-31 (1983); A Celebração do Mistério Pascal. Tempo Pascal, in Boletim de Pastoral Litúrgica, nn. 33-36 (1984); A Celebração do Mistério Pascal. Quaresma, in Boletim de Pastoral Litúrgica, nn. 37-40 (1985).

[6] Ex 12 ss.

[7] 2 Cor 5, 7; Leitura da Missa do Dia do Domingo da Ressurreição.

[8] Jo 13, 1; Evangelho da Missa da Ceia do Senhor em Quinta-feira Santa.

[9] Prefácio da Oração Eucarística II.

[10] Neste sentido, é significativo que outrora se tenha lido na Vigília toda a passagem evangélica da Paixão à Ressurreição.

[11] Gen 1, 1; Leitura I da Vigília.

[12] Última leitura da Vigília.

[13] Missal Romano, Sábado Santo.

[14] Missal Romano, Oração Eucarística I, embolismo próprio de Quinta-Feira Santa.

[15] Evangelho da Missa do Domingo da Ressurreição.

[16] Act 2, I ss; Primeira leitura do Domingo de Pentecostes.

[17] Precónio Pascal.

[18] Da Liturgia do Tempo Pascal.

[19] Leitura II da Missa do Domingo da Ressurreição.

[20] Hino da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

François Marie Arouet - Voltaire



François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (Paris, 21 de novembro de 1694 — Paris, 30 de maio de 1778), foi um escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês.
Conhecido pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusive liberdade religiosa e livre comércio. É uma dentre muitas figuras do Iluminismo cujas obras e ideias influenciaram pensadores importantes tanto da Revolução Francesa quanto da Americana. Escritor prolífico, Voltaire produziu cerca de 70 obras em quase todas as formas literárias, assinando peças de teatro, poemas, romances, ensaios, obras científicas e históricas, mais de 20 mil cartas e mais de 2 mil livros e panfletos.
Foi um defensor aberto da reforma social apesar das rígidas leis de censura e severas punições para quem as quebrasse. Um polemista satírico, ele frequentemente usou suas obras para criticar a Igreja Católica e as instituições francesas do seu tempo. Voltaire é o patriarca de Ferney. Ficou conhecido por dirigir duras críticas aos reis absolutistas e aos privilégios do clero e da nobreza. Por dizer o que pensava, foi preso duas vezes e, para escapar a uma nova prisão, refugiou-se na Inglaterra. Durante os três anos em que permaneceu naquele país, conheceu e passou a admirar as ideias políticas de John Locke.

Ideias

Voltaire foi um pensador que se opôs à intolerância religiosa e à intolerância de opinião existente na Europa no período em que viveu. Suas ideias revolucionárias acabaram por fazer com que fosse exilado de seu país de origem, a França.
 O conjunto de ideias de Voltaire constitui uma tendência de pensamento conhecida como Liberalismo. Exprime na maioria dos seus textos a preocupação da defesa da liberdade, sobretudo do pensar, criticando a censura e a escolástica, como observamos na sua frase "Não concordo com nem uma das palavras que me diz, mas lutarei até com minha vida se preciso for, para que tenhas o direito de dizê-las".
Por fim, destaca-se que Voltaire, em sua vida, também foi "conselheiro" de alguns reis, como é o caso de Frederico II, o grande, da Prússia, um déspota esclarecido.

Primeiros anos

François Marie Arouet nasceu em uma família abastada, burguesa e aristocrata, em Paris, em 21 de novembro de 1694. Sua mãe morreu depois do parto. estudou com os jesuítas no Colégio Collège Louis-le-Grand onde revelou-se um aluno brilhante. Frequentou a Societé du Temple, de libertinos e livres pensadores. Por causa de versos irreverentes contra os governantes foi preso na Bastilha (1717-1718), onde iniciou a tragédia “Édipo” (1718) e o “Poema da Liga” (1723).
Logo tornou-se rico e célebre, mas uma altercação com o príncipe de Rohan-Chabot valeu-lhe nova prisão e foi obrigado a exilar-se na Inglaterra (1726-1728). Ali, orientou definitivamente sua obra e seu pensamento para uma filosofia reformadora. Celebrou a liberdade em uma tragédia (Brutus, 1730), criticou a guerra (História de Carlos XII, 1731), os dogmas cristãos (Epístola a Urânio, 1733), as falsas glórias literárias (O templo do gosto, 1733) e escreveu um dos livros que mais o projetaram, as “Cartas Filosóficas” ou “Cartas sobre os ingleses”, que criticava o regime político francês, fazendo espirituosas comparações entre a liberdade inglesa e o atraso da França absolutista, clerical e obsoleta.
Cassou-se esse livro pelas suas autoridades, refugiou-se no Castelo de Cirey, onde procurou rejuvenescer a tragédia (Zaire, 1732; A morte de César, 1735; Mérope, 1743). Logrou obter um lugar na Academia Francesa (1746) graças a algumas poesias (Poema de Fontenoy, 1745), e, no mesmo ano, foi para a corte, na condição de historiógrafo real. Convidado por Frederico II, o Grande, da Prússia, foi viver na corte de Potsdam, onde publicou inicialmente um conto “Zadig” (1747) e posteriormente “O século de Luís XIV” (1751) e “Micrômegas” (1752). Em 1753, depois de um conflito com o rei, retirou-se para uma casa perto de Genebra. Ali, chocou ao mesmo tempo os católicos (A donzela de Orléans, 1755), os protestantes (Ensaio sobre os costumes, 1756) e criticou o pensamento de Rousseau (Poema sobre os desastres de Lisboa, 1756).

Início de carreira

Replicando seus opositores com um conto “Cândido” (1759), refugiou-se em seguida em Fernay. Prosseguiu sua obra escrevendo tragédias (Tancredo, 1760), contos filosóficos dirigidos contra os aproveitadores (Jeannot e Colin, 1764), os abusos políticos (O ingênuo, 1767), a corrupção e a desigualdade das riquezas (O Homem de Quarenta Escudos,1768), denunciou o fanatismo clerical e as deficiências da justiça, celebrou o triunfo da razão (Tratado sobre a tolerância, 1763; Dicionário Filosófico, 1764).
Iniciado maçom no dia 7 de março de 1778, mesmo ano de sua morte, numa das cerimônias mais brilhantes da história da maçonaria mundial, a Loja Les Neuf Sœurs, Paris, inicia ao octogenário Voltaire, que ingressa no Templo apoiado no braço de Benjamin Franklin, embaixador dos EUA na França nessa data. A sessão foi dirigida pelo Venerável Mestre Lalande na presença de 250 irmãos. O venerável ancião, orgulho da Europa, foi revestido com o avental que pertenceu a Helvetius e que fora cedido, para a ocasião, pela sua viúva.
Chamado a Paris em 1778, foi recebido em triunfo pela Academia e pela Comédie-Française, onde lhe ofereceram um busto. Esgotado, morreu a 30 de maio de 1778.
Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência alguns abusos praticados pelo Antigo Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punirum servo, passar por todos os processos legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".
As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, mas por vezes contraditória, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.
Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se em sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira liberal e racional, sem levar em conta as tradições.
Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado liberais, tolerantes fossem utópicos. Não era um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos dogmas, sobretudo os da Igreja Católica, que afirmava contradizer a ciência, no entanto, muitos dos cientistas de seu tempo eram padres jesuítas.
Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registrada no tomo XII da famosa revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de abril de 1778, páginas 87-88, o seguinte relato literal de Voltaire:
"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na Santa Religião Católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo."
Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois seria confirmado por outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que se converter a uma religião específica, como o catolicismo. No caso de Voltaire não teria ocorrido reconversão.
Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".
A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. Em 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no Sagrado o corpo de Voltaire. Mas no dia seguinte, o prior responde ao bispo que seu aviso chegara tarde, porque - efetivamente - o corpo do filósofo já tinha sido enterrado na abadia. Livros históricos afirmam que ele tentou destruir a Igreja a favor da maçonaria.
A Revolução trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao Panteão de Paris- antiga igreja de Santa Genoveva - ,dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rousseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:
"Aos louros de Voltaire. A Assembleia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens".
Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, tolerância religiosa, tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero. Mas também foi precursor da Revolução Francesa, ela que instaurou a intolerância, a censura e o aumento dos impostos para financiar as guerras, tanto coloniais, quanto napoleônicas (Europa). Se, em uma obra tão diversificada, Voltaire dava preferência a sua produção épica e trágica, foi, entretanto nos contos e nas cartas que se impôs. Como filósofo, foi o porta voz dos iluministas.
Não seria exagero dizer que Voltaire foi o homem mais influente do século XVIII. Seus livros foram lidos por toda a Europa e vários monarcas pediam seus conselhos.

Obras

As principais obras de Voltaire:
·         Édipo, 1718
·         Mariamne, 1724
·         La Henriade, 1728
·         História de Charles XII, 1730
·         Brutus, 1730
·         Zaire, 1732
·         Le temple du goût, 1733
·         Cartas Filosóficas, 1734
·         Adélaïde du Guesclin, 1734
·         Le fanatisme ou Mahomet, (escrita em 1736, representada em 1741)
·         Mondain (Voltaire), 1736
·         Epître sur Newton, 1736
·         Tratado de Matafísica, 1736
·         L'Enfant prodigue, 1736
·         Essai sur la nature du feu, 1738
·         Elementos da Filosofia de Newton, 1738
·         Zulime, 1740
·         Mérope, 1743
·         Zadig ou o destino, 1748,
·         Sémiramis 1748
·         Le monde comme il va, 1748
·         Nanine, ou le Péjugé vaincu, 1749
·         Le Siècle de Louis XIV, 1751
·         Micrômegas, 1752,
·         Rome sauvée, 1752
·         Poème sur le désastre de Lisbonne, 1756
·         Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, 1756
·         Histoire des voyages de Scarmentado écrite par lui-même, 1756
·         Cândido ou o otimismo, 1759
·         Le Caffé ou l'Ecossaise1760
·         Tancredo, 1760
·         Histoire d'un bon bramin, 1761
·         La Pucelle d'Orléans, 1762
·         Tratado sobre a tolerância, 1763
·         Ce qui plait aux dames, 1764
·         Dictionnaire philosophique portatif, 1764
·         Jeannot et Colin, 1764
·         De l'horrible danger de la lecture, 1765
·         Petite digression, 1766
·         Le Philosophe ignorant, 1766
·         L'ingénu, 1767
·         L'homme aux 40 écus, 1768
·         A princesa da Babilônia, 1768
·         Canonisation de saint Cucufin, 1769
·         Questions sur l'Encyclopédie, 1770
·         Les lettres de Memmius, 1771
·         Il faut prendre un parti, 1772
·         Le Cri du Sang Innocent, 1775
·         De l'âme, 1776
·         Dialogues d'Euhémère, 1777
·         Irene, 1778
·         Agathocle, 1779
·         Correspondance avec Vauvenargues, établie en 2006

Referências
1.     Voltaire. Info Pensador. Página visitada em 3 de fevereiro de 2012.
2.    ↑ a b c d e f g Voltaire (em português). UOL - Educação. Página visitada em 20 de novembro de 2012.
3.     Voltaire. Sua Pesquisa. Página visitada em 2 de fevereiro de 2012.
4.     Voltaire (François Marie Arouet). Net Saber. Página visitada em 2 de fevereiro de 2012.
5.     Guimarães, José Maurício (1 de julho de 2011). VOLTAIRE: Vida, Iniciação e Morte. Loja Maçônica Honra e Paz. Página visitada em 3 de fevereiro de 2012.
6.     Voltaire no Find a Grave.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Filosofia e Magia no Renascimento - De Héléne Véndrine




Introdução: Uma história tão longa...
Como aparece o extra-ordinário, o inabitual no interior da ordem da natureza? Entre ciência e magia, o pensamento do renascimento hesita. Cometas, monstros, diabos, feiticeiras, milagres, poderes misteriosos são tantos os sinais os quais são discutidos pelos doutos. Qual a diferença entre estabelecer o horóscopo de cristo que pratica Cardan[1] para o grande escândalo de seus contemporâneos e os horóscopos que Galileu tira, divertindo-se, para ele e seus amigos? O que pensar dos cometas e dos prodígios que acompanham um grande acontecimento?
Entre a magia natural que é a arte do produzir efeitos fantásticos graças ao saber superior do mágico e a ordem habitual dos fatos, as fronteiras são mal traçadas. Cosmologia, astronomia, astrologia, física coexistem entre os maiores sábios. Képler é um dos exemplos celebres. Discute-se até o infinito para estabelecer uma distinção entre adivinhação “ilícita” daquilo que pode predizer o futuro. Enfim, em um cosmos onde Deus age por intermédio das esferas celestes, da alma do mundo e dos anjos, é bem difícil saber se os milabilia dependem dos maus demônios ou dos anjos. Entre os saberes controláveis e as superstições, a magia (no sentido largo) é onipresente em suas contradições e as questões que ele coloca à filosofia e à religião.
Gostaríamos de refletir aqui a constituição dos campos dos saberes no Renascimento buscando determinar o modo de funcionamento do pensamento nos séculos XV e XVI, as formas de racionalização onde se entrelaçam magia e ciência.
Unidade e dispersão
“Da astronomia saiba em todos os cânones; deixe-me o astrólogo adivinhador e a arte de Lullulius, como abuso e vaidade.”
Esta injunção contida na carta programa destinada a Pantagruel resume a opinião de Rabelais em 1534 e aquela de certo número de seus contemporâneos. Os “loucos profetas” irritam por seus excessos, mas as fronteiras entre a astronomia e a astrologia estão longe de estarem fixadas.
Pode-se falar de uma unidade no pensamento do Renascimento? Sim, se aceitamos que ele se inseria bem em uma “epistême” onde se articulam astrologia, magia, demônios e premonições. Não, se levarmos em conta a variedade de polêmicas e dos debates em jogo. Os ilustrados não têm dificuldades em demonstrar que o movimento chamado “Humanismo e Renascimento” não possui nem homogeneidade nem unidade.
Inicialmente, há o problema cronológico. É necessário insistir sobre a renovação das artes e da literatura que começa na Itália por volta do ano de 1400? É necessário reconhecer a importância das datas emblemáticas: 1453, tomada de Constantinopla pelos turcos, 1492, descoberta da América, 1517, fixação das teses de Lutero nos postes da catedral de Wittemberg, 1543, a publicação do De revolutionibus orbium Coelestium de Copérnico, 1600, morte de G. Bruno na fogueira do Campo di Fiori?... Poderíamos continuar. E falar da diferença entre os países do norte da Europa e aqueles do sul. Tentar avaliar a influência do neo-platonismo de Florença sobre os pensadores da época. Perguntar-nos o que era essa cultura européia baseada no latim e no grego, sobre a descoberta dos novos textos onde Hermes Trismegisto, Demócrito, magos, gimnosofistas e “sábios” universais, que se relacionam em sínteses bem surpreendentes.
Para nossa proposta, remarquemos que é impossível estabelecer uma fronteira rigorosa entre os partidários da magia ou da astronomia daqueles do saber estritamente controlado. Não é possível separar com precisão o “racional” do “místico”, “ciência” e “superstição”, “astronomia científica” e “astrologia”. Nossos conceitos não se adéquam a maneira de apreender o mundo própria dos filósofos do Renascimento. A divisão sujeito/objeto não tem nenhum sentido e o conhecimento se realiza muito mais em termos de fusão do que de separação. Cognitio est coitio quaedam, diz um célebre platônico chamado Patrizzi. Magia, astrologia, demonologia se encontram integradas em um sistema de forças. Mas o problema começa com a interpretação da possibilidade de agir sobre a natureza ou sobre os fatos: onde começa e onde termina o ilícito? Como conciliar a premonição de Deus e o saber taumaturgo?
Questões decisivas para a ética, a religião e a filosofia.
Polissemia da Magia
“Profunda magia é saber unir os contrários após ter encontroado o ponto de união.” Diz G. Bruno em um de seus diálogos em língua italiana, intitulado Causa, principio e Unidade.[2]
Este texto poderia resumir todo um aspecto do pensamento do Renascimento: o jogo de identidades e diferenças constitui a trama sobre a qual refletiram gerações de filósofos que, ao invés de procurarem idéias claras e distintas, preferem avançar por meio de totalização e des-totalização. Filósofos dos conceitos, mais do que do entendimento, mais adeptos dos “furores heróicos” do que da lógica finalista. Os espíritos belos pensam em termos de atração, de afinidade, de dinamismo, dephilia. Como o disse Ficino (1433-1499)[3] que inventa um novo tipo de reflexão: “Toda a natureza é chamada de mágica em virtude do amor recíproco.”[4] A extensão do termo magia é praticamente inesgotável. É seguramente com essa polissemia que operam os autores.
No sentido mais geral, a magia está baseada sobre as ligações de simpatia que unem todos os seres em função da influência dos seres superiores sobre os seres inferiores. No limite, a magia se identifica com a ciência primeira na qual se unem todos os outros conhecimentos. No testemunho em De Occulta philosophia de Cornelius Agrippa de Nettesheim[5], manual emblemático de todos os saberes herméticos do Renascimento. Publicado em 1530, ele expõe os grandes princípios da magia natural e da magia celeste a partir de uma leitura de Ficino e Pico della Mirandola [6]. Síntese onde o hermetismo antigo e a cabala se encontram cristianizados e recuperados em uma visão da harmonia universal que entusiasmou alguns, e apavorou outros. “A magia é uma faculdade que tem um grande poder, pleno de mistérios nobres e que guarda uma profunda forma de conhecimento das coisas as mais secretas, sua natureza, seu poder e sua conexão. De onde ela produz seus efeitos pela união e pela aplicação que ela faz das diferentes virtudes dos seres superiores com aquela dos inferiores. Está aí a verdadeira ciência, a filosofia mais elevada e a mais misteriosa, a perfeição e a realização de todas as ciências naturais, pois que toda filosofia regular se divide em física, matemática e teológica.”[7] Tudo está nisso: os efeitos maravilhosos, o mistério, mas também a forma suprema da ciência.
Nesse sentido, a magia se identifica com o sonho do saber absoluto e com a transformação universal: encontrar correspondências entre o macrocosmo e o microcosmo, descobrir o alfabeto onde se inscrevem com letras de fogo os segredos do universo. Do alquimista ao mágico, passando pelo astrólogo, o fantasma da potência se manifesta por meio de uma fascinação criadora. Encontrar o enigma que escapa ao vulgar, produzir o efeito misterioso que assombrará. Toda uma ontologia do segredo que se estende aos confins da imaginação e do onírico. A ambivalência é a lei destas cosmogonias fantásticas onde o poder de ligar àquele que transgride o saber vulgar, mas se submetendo a uma ordem dissimulada. Visão ativa da matéria, mas também dos signos. Libertação de palavras, cartas, categorias, de evocação e de lugares. Topologia diabólica de 3500 demônios (ao menos que este não seja mais) aos quais respondem o tópico celeste de anjos. Inventaire à La Prevert[8]da Biblioteca Saint-Victor segundo Rabelais, ou enumeração dos Poderes, dos Séphiroth[9] e dos Thorones por Agrippa? Ninguém sabe. Mas cada um pode escolher:aeromancia, pyromancia, dacylomantia, coscinomancia, céphalomancia, lucomantia, etc.
Segundo a filosofia de numerosos filósofos do Renascimento, a magia não é delimitável. Em Copérnico que escreveu Mathemata mathematicis scribuntur (as matemáticas são escritas por matemáticos), os filósofos respondem que a alma humana estando localizada entre o céu e a terra, ela não saberia a estrita disciplina das ciências exatas. Bruno, fervoroso partidário de Copérnico, repreende este de ter se limitado a uma astronomia puramente matemática. É necessário concluir que é imprudente falar de racionalismo do Renascimento? A querela prolifera enquanto ela escondia lutas intensas entre dois campos: uns insistindo sobre aspecto livre do pensamento, os outros estando mais sensíveis ao peso do passado[10]. Estas polêmicas estão ultrapassadas. O termo “racionalismo” abrange um sentido muito mais largo que antigamente, na medida em que a etnologia e as ciências do homem nos habituaram a ver uma ordem na diversidade de fenômenos aparentemente aberrantes. Enfim, é necessário não esquecer que para o pensamento do Renascimento, não existe limite preciso entre o provável e a prova.
Semelhança, participação, metáfora são termos sobre os quais atua o hermetismo. “Há sobre os corpos certa idéia de humanidade graças a qual, por participação e semelhança, todos aqueles que são homens tornam-se homens”, repete Ficino após Platão ou Plotino. Participação na idéia, mas também e, sobretudo influencia dos poderes celestes sobre os seres terrenos: progressão de um ao múltiplo que permite fazer participar o visível na dignidade do invisível. Espelho de mil facetas onde a unidade se reflete.
Espectador e ator, o filosofo-mago participa na vida das formas e eleva a matéria a uma dignidade superior transformando-a graças ao poder taumaturgo que ele adquire pelo seu saber e sua sabedoria. É necessário levar a sério a idéia do homem, cópula do mundo. Sobre ela se fundam a arte das correspondências e das transmutações. É este lugar original na hierarquia dos seres que permite ao homem aplicar os diferentes vínculos (vincula) e dominar os fluxos. Fazer-se sobre-humano utilizando melhor seu gênio. Uma vez mais Ficino dá o tom: “Nós que escolhemos o gênio, mestre de nossas vidas. E não é o gênio que nos escolhe. A responsabilidade volta ao autor da escolha.”[11] Bem longe de ser uma “falsa ciência”, a magia é prova do saber e do poder. Daí a fascinação que exerce sobre os profetas, como também sobre os políticos como Maquiavel e sobre os espiritualistas. A profecia é inicialmente vista como uma conquista humana antes de parecer para as massas um dom de Deus. O mais sábio, o mais culto é também aquele que queima ardentemente: não há poder sem furor, sem essa mania que distingue o herói do vulgar. Os grandes iniciados participam da elite dos homens superiores. Deste ponto de vista, magia e filosofia não se opõem.
Isso não impede que em um domínio tão sensível, não fosse necessário estabelecer distinções e de estabelecer as regras de diferenças entre o lícito e o ilícito.
Os critérios utilizados para julgar os diversos aspectos do ocultismo, do hermetismo, da magia ou da astrologia diferem segundo as épocas, pois que eles também atuam sobre a filosofia pura como na religião, na ética como na política. Por que a repressão às feiticeiras toma tanta importância na segunda metade do século XVI, quando esse tipo de atividade era tolerada anteriormente? Como interpretar os sinais? O que o demoníaco? E como separar a probabilidade honesta ligada à pratica da agricultura da predição dos horóscopos? Sobre esse ponto, a Igreja e a Justiça tinham uma longa prática. Mas de acordo com as épocas, a tolerância varia. Entretanto, tanto é a Inquisição que tem a última palavra como a Justiça.
Mas os pensadores também têm opinião. Não se pode negar que a influência dos neo-platônicos de Florença transformou profundamente a paisagem intelectual. A irrupção dos textos atribuídos a Hermes Trimegisto, “o retorno em força[12]” do ocultismo antigo deu ares de nobreza a práticas, que se acreditavam abandonadas. Mais grave talvez seja que a demagogia torna-se objeto de pesquisa. No final do século XVI, o magistrado Bodin, assustado com o crescimento da feitiçaria, critica os florentinos por não saberem distinguir entre os bons e maus demônios. “o que quiseram os platônicos, não entendendo bem, foi por meios dos demônios inferiores e dos meio-deuses atrair os deuses superiores, para enfim atrair o Deus superior.[13]” Uma investigação tão completa como esta empreendida por Bodin em “De La démonomanie des sourcieres” não pode ser compreendida sobre o fundo das preocupações de um magistrado filósofo. Enquanto magistrado, ele condena “feiticeiro é aquele que por meio diabólicos conscientes se esforça para conseguir qualquer coisa.[14]” E por descrever abundantemente os meios diabólicos: missas negras, copulação com bodes, transporte sobre vassouras... mas enquanto filosofo, ele necessita descrever esta loucura que é a feitiçaria, e fazê-la entrar em um sistema de mundo. Ele coloca então o problema da utilização dos “saberes”, legítimos ou ilegítimos. Responsabilidade do sábio...
A linha de divisão está longe de estar clara: um partidário da astrologia pode se revelar opositor a magia e vice-versa. A querela que opõe florentinos e aqueles nascidos em Pádua atua em diversos níveis, e mobiliza também tanto o problema ético (papel da liberdade) como o problema cosmológico (papel dos astros).
E, sobretudo, opõem-se duas visões do milagre. A confiança cega dos platônicos, que não hesitam em ver o maravilhoso em tudo, um médico, um filósofo como Pompanazzi solicita que se desligue cuidadosamente aquilo que é da ordem dos fatos do que é indeterminado. Por exemplo, ele afirma que “nenhuma razão natural pode provar a imortalidade da alma.”[15] Mas ele acrescenta que a religião pede que acreditemos. É uma mistura de audácia calculada e de prudência que caracteriza esta obra ambígua, mas de que o viés crítico não passou despercebido por seus contemporâneos. A mesma tática quando se trata de milagres: Existem aqueles que são canônicos (reconhecidos pela Igreja), e que não se coloca em dúvida; e aqueles que são apenas o resultado das multidões crédulas... As práticas discursivas nesta área respondem a opções filosóficas e éticas. Mas todos estes pensadores concordam sobre um ponto: como dirigir sua vida em função das forças que animam o cosmos? Magos ou astrólogos procuram uma ética.
Esta ética tem suas características próprias: ela utiliza o vasto corpus redescoberto pelos eruditos para atualizar em um quadro de uma pesquisa de potência. A figura do alquimista modesto e discreto desaparece em favor de um herói conquistador e seguro de si. Cada um deles proclama sua originalidade e sua glória. Com o pretexto que “tudo esta dentro de tudo”, pode-se reduzir o pensamento dos filósofos a uma simples retomada do pensamento antigo. Por exemplo, o hermetismo de Bruno somente pode ser compreendido sobre o fundo de sua cosmologia “infindável” e, sobretudo sua crítica virulenta a sociedade. Mas esta cosmologia não seria somente reduzida, como afirmam alguns, a uma simples retomada dos Antigos. Ela é profundamente transformada pela leitura de Copérnico e pela destruição teórica da cosmologia aristotélica. Hermetismo e ciência se conjugam de uma forma um tanto original. E o mesmo problema se colocara mais tarde para Kléber e Newton...
A ciência desconstrói ao mesmo tempo em que engloba. O paradoxo do Renascimento está aí: tudo acontece como se no momento que o antigo sistema afunda, ele funciona ao mesmo de tempo de uma forma sobredeterminada e fixada.
Sobredeterminada, em alguns autores como Cornelius Agrippa que em Philosophie occulte ou De La magie resume de uma maneira enciclopédica o conjunto de crenças mágicas e herméticas sem esquecer a Cabala, a arte de Lulle e todas as seitas mais ou menos conhecidas. Manual de sucesso, que foi pilhado por todos.
Mas ao mesmo tempo este corpus naufraga rotundamente. Erasmo, Rabelais, Montaigne e outros o desprezam abertamente. Lembremos que na ocasião da visita a Herr Trippa e do Tiers Livre que ridicularizam a adivinhação, os sortilégios virgilianos, e as premunições. Há ao mesmo tempo conivência e distanciamento. Conivência sobre um antigo fundo de cultura popular e distanciamento porque “os reverendos pais em diatribes” são infames charlatões. Mas as sutis distinções a magia espiritual e a magia demoníaca são as vezes frágeis. O diabo e os demônios assombram demais estes lugares onde “fuinhas, lagartas, basiliscos, cantáridas crocodilos, sapos” avizinham-se com os “dragãos e os escorpiões” sem contar os gatos negros...
Pico de La Mirandola resume muito bem esta ambiguidade da magia : “eu digo e repito que esse nome de magia é um termo equivocado, e significa também necromancia onde se procede tanto com pacto e acordos estreitos com os demônios, como com a parte prática da ciência da natureza, que não ensina nada além de realizar obras maravilhosas por meio de forças naturais”
Esta experiência do equívoco repousa sobre uma relação paradoxal entre o visível e o invisível. Além de qualquer propósito que leiamos, há uma antologia do olhar, da luz, dos espelhos, das forças ocultas. E isto sob uma forma estranha. Então que os pintores descobrem o espaço rigoroso da perspectiva e fixam uma estética do real construída geometricamente, os filósofos inventam uma espécie de tele-espaço onde as distâncias são abolidas e onde o real, por um jogo de transversalidade, foliações e pontos de vista, como um telescópio.
Quando então se esboça uma fenomenologia da representação, e uma construção do espaço abstrato, o tecido do cosmos é tateado em enigmas, em espelhos, em simultaneidade. De um lado um enfoque de tipo cientifico e “objetivo”, de outro um cosmos vivo onde o ser acontece como em uma palpitação interna. Dinâmico de transformações, participação, interferências: alquimia dos sentidos, imagens flutuantes, melancolias ativas do gênio que corre atrás de formas inacabadas.
Esta tensão entre dois aspectos caracteriza o momento do Renascimento. Enraizamento no ser que despe e se afirma em “imagem”, em “enigma”. Do outro lado, a conquista de um saber matemático, exaltação das novas praticas, afirmação de si, o realismo político. Os dois aspectos não se excluem. Não se trata de derrotar a filosofia do mistério, nem de aprisioná-la no discurso bárbaro dos lógicos deterministas, mas sim compreender este estilo solto que engloba com paixão todos os aspectos da cultura.
A Polissemia da magia atua sobre as possibilidades de combinação. Nesse sistema, anjos, demônios, poderes, curiosidades, sortilégios, artes divinatórias, etc atuam como significantes flutuantes[16].Encontramo-los agenciados diferentemente segundo os autores e suas opções. Mas o surpreendente é a persistência dos mesmos exemplos, das mesmas mirabilia. Nós já o remarcamos: as provas na época são somente da ordem do possível. Durante anos, o sistema de Copérnico não pode impor-se porque não havia nenhuma prova decisiva em seu favor. Em revanche, ninguém se surpreende que Della Porta pudesse escrever em 1558 um livro intitulado: Da magia natural ou Dos milagres da natureza.[17] Esta plasticidade de conceitos exclui um racionalismo estrito em proveito de racionalizações atuantes sobre estes quase-objetos que são os significantes flutuantes.

Tradução de Augusto Patrini Menna Barreto Gomes


[1] Nota do Tradutor: Ou Girolamo Cardano (Pavia, Itália, 24 de setembro de 1501 — Roma, 21 de setembro de 1576), foi um cientista e sábio, matemático, filósofo, médico.
[2] Giordano bruno, Cause, principe et unité, traduction E. Namaer, p. 264, Paris, Alcan, 1930, réimpression: Éd. D´Aujourd´hui, Paris, 1982.
[3] Nota do tradutor: Marsílio Ficino (em italiano Marsilio Ficino; Figline Valdarno, Florença, 19 de outubro de 1433 - Careggi, 1 de outubro de 1499), filósofo italiano, é o maior representante do Humanismo florentino.
[4] M. Ficin, Commentaire sur Le “Banquet” de Platon, traduction de R. Marcel, p. 221, Les Belles Lettres, 1956.
[5] Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (Colônia, 14 de Setembro de 1486 — Grenoble, 18 de Fevereiro de 1535) foi um mago, escritor de ocultismo, astrólogo e alquimista.
[6] Giovanni Pico della Mirandola (Mirandola, 24 de fevereiro de 1463 – Florença, 17 de novembro de 1494), foi um erudito, filósofo neoplatônico e humanista do Renascimento italiano.
[7] Cornelius Agrippa, La Philosophie occulte ou De La Magie, I, 2, p. 3, Éd. Traditionnelles, Paris, 1962.
[8] Nota do T.: Um conjunto heteróclito de coisas (o poema Inventaire de Prévert enumera várias coisas).
[9] Nota do T: Sephiroth (cujo singular é Sephira) são as dez emanações de Ain Soph na cabala. Segundo a cabala, Ain Soph é um princípio que permanece não manifestado e é incompreensível à inteligência humana. Deste princípio emanam os Sephiroth em sucessão. Esta sucessão de emanações forma a árvore da vida.
[10] Ver a polêmica entre Plattard e L. Febvre. Cf. L Febvre, Le problème de l ´incroyance au XVIe sècle, la religigion de Rabelais, Paris, 1942. Nombreuses éditions depuis.
[11] M. Ficin, Thélogie platonicienne, XIII, II, traduction de R. Marcel; t. II, p. 209, Paris, Les Belles Lettres, 1964.
[12] Nota do tradutor: retour de force em francês significa o voltar com muita força, retornar com tudo.
[13] J.Bodin, De La démonomanie dês sorciers, 1ª édition, 1580, Gutenberg Réprint (sur l´édition de 1587), Paris, 1979, Livre I, chap 3, p. 22.
[14] Id., I., 1, p. 1.
[15] P. Pompanazzi, De immortalitate animae, chapitre XV, 1re édition, 1516.
[16] Nota da autora: Termo utilisado por Lévis-Strauss, e alguns psicanalistas.
[17] Della Porta, De La magie naturelle ou Des miracles de La nature, 1558. Reprint sur l´édition de Rouen de 1612. Edition La Maisnie, Paris, s.d.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Mestre Ramatis


O Mestres Ramatis e Kuthumi, são na verdade a mesma fonte de consciência. Como Ramatis, este nosso Irmão Maior, exerce hoje a função de Secretário Geral da FRATERNIDADE DA CRUZ E DO TRIÂNGULO, que se empenha em divulgar os ensinamentos de JESUS, paralelamente com a tradição espiritualista do Oriente, estabelecendo assim, um profícuo intercâmbio entre as correntes espiritualistas do Ocidente e as fraternidades iniciáticas do mundo Oriental, com significativo proveito para toda a Humanidade.

Ramatis foi Nathan, o grande conselheiro de SALOMÃO; Essen, filho de Moisés e fundador da fraternidade Essênia, fiel seguidor dos ensinamentos Kobdas; e mais recentemente, Phylon de Alexandria, contemporâneo de JESUS, por cuja segurança muito lutou.

Quando de sua passagem por Atlântida, em que foi um Sacerdote, conviveu com Allan Kardec. Viveu também no Egito, na era de Ramsés II e do Faraó Mernephtah, quando reencontrou–se com Kardec, então o sacerdote Amenófis.

Ramatis, assim como muitos de nós, é oriundo do Sistema Estelar de Sírius. Em Atlântida, ele foi um Sacerdote Aumbandhã, que foi uma sabedoria milenar que trouxe do Sistema de Sírius, que significa Lei Maior Divina ou Sabedoria Secreta, Setenária e Esotérica. Aumbandhã é um instrumento de Magia Branca utilizado pelos altos Sacerdotes da Luz Atlantes, na verdade, os Magos Brancos, composto por Leis Cósmicas e pelas Forças da Natureza, para deter o avanço das trevas.

Esses Magos Brancos de outrora, que na sequência foram Caldeus, Babilônicos, Egípcios e, alguns, africanos, fizeram com que se mantivesse viva a Magia Atlante ancestral. O Mantra original da Lei Divina, Aumbandhã, foi retomado e nasceu a Umbanda. Isto aconteceu em 1.908, quando o médium Zélio Fernandino de Moraes, numa sessão mediúnica que se realizava na Federação Espírita de Niterói, Estado do Rio de Janeiro, recebeu uma Entidade de Luz, que se denominou Caboclo das Sete Encruzilhadas e comunicou que, por deliberação do Alto, iria se instituir, sob o signo da caridade um novo culto ao qual dariam o nome de Umbanda. No dia seguinte, 16 de novembro de 1.908, o primeiro Templo de Umbanda, a Tenda Nossa Senhora da Piedade, foi fundada por aquela entidade. Era o componente que faltava do Conhecimento Antigo. Ela tinha que reviver no Brasil, porque aqui ficou a semente espiritual do povo atlante. Vem também desde os tempos de Atlântida, nosso envolvimento com as Terapias que hoje conhecemos por Apometria e Anti-goécia.

Como mensageiro sideral, ombreia-se Ramatis com as mais destacadas entidades, tais como Emmanuel ou Hilarion. E, como luzeiro espiritual, não há prisma terráqueo capaz de mensurá-lo. É de se notar, que em toda a sua literatura, Ramatis curva-se à majestosa personalidade de Allan Kardec, com importantes referências ao seu legado, a Codificação do Espírito, salientando sempre que o Espiritismo sem Kardec não é Espiritismo.

O Templo que Ramatis fundou foi erguido pelas mãos de seus primeiros discípulos e admiradores. Cada pedra de alvenaria recebeu o toque misterioso, que não pode ser explicado a contento na linguagem humana.

Embora tendo desencarnado ainda moço, Ramatis pode aliciar 72 discípulos que, no entanto, após o desaparecimento do mestre, não puderam manter-se à altura do mesmo padrão iniciático original. Eram adeptos de diversas correntes religiosas do EGITO, da ÍNDIA, da GRÉCIA, da CHINA e até da ARÁBIA.

Apenas 17 conseguiram envergar a simbólica Túnica Azul e alcançar o último grau daquele círculo iniciático. Os demais, seja por ingresso tardio, seja por menor capacidade de compreensão espiritual, não alcançaram a plenitude do conhecimento das disciplinas ensinadas pelo Mestre. Vinte e seis adeptos estão no Espaço desencarnados, cooperando nos trabalhos da “CRUZ E DO TRIÂNGULO”. O restante disseminou-se pela Terra, em diversos lugares. Acredita-se que 18 reencarnaram no Brasil, 6 nas Américas, enquanto os demais espalharam-se pela Europa e Ásia.

Como a Europa está atingindo o final de sua missão civilizadora, alguns discípulos reencarnados emigrarão para o Brasil, em cujo território, afirma Ramatis, reencarnarão os predecessores da generosa humanidade do terceiro milênio. No templo que Ramatis fundou na Índia, esses discípulos desenvolveram seus conhecimentos sobre magnetismo, astrologia, clarividência, psicometria, radiestesia e assuntos quirológicos, aliados à filosofia do “duplo etérico”. Os mais capacitados tiveram êxito no campo da “Fenomenologia mediúnica” dominando fenômenos de levitação ubiqüidade, vidência e psicografia de mensagens que os instrutores enviavam para aquele templo de estudos espirituais.

Mas, o principal “toque pessoal” que Ramatis desenvolveu em seus discípulos foi o pendor universalista, devido ao próprio fundamento fraterno e Crístico para com todos os esforços na esfera espiritualista. Não se preocupam com os invólucros dos homens, movendo-se para solucionar o mistério da vida. Sentem a realidade contínua do Espírito, que só lhes inspira o amor e a fraternidade, a qualquer momento e em qualquer local. Respeitam e compreendem a necessidade que os homens tem de buscar a verdade, a fim de se exercitarem para os vôos crísticos do futuro. Não se adaptam a exclusivismo algum e evitam postulados doutrinários que cerceiam a liberdade da razão.

Sua última encarnação na Terra já como Ramatis, ocorreu na INDOCHINA no século X. Continua, entretanto, militando em nosso pequeno mundo, em obras de transformações sociais e como insigne mensageiro que, não obstante as conhecidas limitações mediúnicas, ainda consegue ditar obras de envergadura de FISIOLOGIA DA ALMA, MENSAGENS DO ASTRAL, EVANGELHO À LUZ DO COSMO, além de outras, contendo mais de uma dezena de preciosidades de inegável valor doutrinário e filosófico.

Os relatos acima são dos Médiuns: Hercílio Maes e Norberto Peixoto,
extraídos dos livros Mensagens do Astral, e Chama Crística.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Oferenda ao Sete Tumbas




Oh Grande Mestre das Sete Catacumbas
seja o conselheiro e meu fiel protetor
tu que transita entre as zonas umbralinas
aceite essa oferenda que vem do coração.

Seu Sete Tumbas que guarda a sabedoria
do antigo Egito e que a cabala ensina
a ti eu planto amor e semente de jurema
a ti eu rendo as graças ó grande do Catimbó.

Seu Sete Tumbas ou Rei Exú das Catacumbas
eu te agradeço em pleno grito e poesia
pois sei que Tu não faz promessas insensatas
e sempre liberta os filhos seus da agonia.

Salve salve ao Seu Sete Tumbas Exú da Calunga Pequena!
Salve salve ao Seu Sete Tumbas que guia as almas nas travessias!


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google